Domingo, Novembro 25, 2007
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da saudade

sempre me atenho ao que é de maior importância. pode o tempo esgotar que, se ainda houver importância, vou lembrar, vou guardar, vai estar comigo. e quando a importância se perde, é tão rápido. tão pra sempre. pra mim tudo é tão pra sempre, sempre. gostar e desgostar é pra sempre. a mudança é pra sempre. a transitoriedade... pra sempre. e a minha cidade vai me escapando pelos dedos, os amigos, a mãe, os coqueiros, o cheiro do meu travesseiro, a água quente do mar da bahia, a coxinha de galinha, o açaí, o strogonoff, a brisa morna, o pôr do sol no farol, o cheiro de acarajé, o sorriso das amigas embaixo das mangueiras de são lázaro às 7 da manhã, os dias de calor, a familiaridade com os porteiros do prédio, os amigos de 8 anos, o português, a miséria, a melhor amiga morando há passos de distância,
descobrir onde fica a ladeira da preguiça, ter uma mãe que é uma garota do barbalho, os colos de tanta gente, o amigo dos cinemas, as amigas no estágio, as conversas
psicológicas e psicologizantes, os rótulos psicanalíticos, a presença da mãe vendo tv enquanto estou no computador, o gosto do dendê, o frescor da água de coco, os amigos os amigos os amigos, cada canto do meu quarto, o mesmo quarto há 22 anos, o cheiro do meu quarto, o calor do meu quarto, as cores do meu quarto, o canto que é meu só, a vida que é só minha, minha cidade sem estações, uma possessividade só, uma saudade antes da hora, um desespero, um medo, uma vontade de chorar, o meu carro, fruta no café da manhã, ver a lua cheia da janela do quarto, tomar banho de mar na chuva, ver a lua no solar do unhão, as praias vizinhas, as cidades do interior, a família, a graça, a vitória, barra, ondina, rio vermelho, almoçar no manjericão, ir pro pelourinho, o shopping barra, a sensação de completa alienação ao andar pelas ruas do meu bairro, sentir que eu e o bairro somos uma coisa só, a prainha de ondina, ser assaltada na prainha de ondina, beijar no pôr-do-sol na prainha de ondina, o isba, a ufba, o acalanto, a escolinha da graça, a música brasileira, as novelas, os quitutes, o sebo anual da feirinha da fraternidade, o cemitério da ladeira da barra, o icba, o victória marina, a avenida sete, comer salada de fruta da cantina, reclamar da comida odiosa de são lázaro, fugir pra almoçar na poli e ver o vento fazer barulhinho bom com os bambus, sentir o cheiro da maconha em são lázaro, as filas da xerox, o engarrafamento na garibaldi, os pombos dançando em círculo em frente à
prefeitura, busca vida, o ogodum, a barão de loreto, os cães de rua, o queijinho com orégano, joão do camarão, praia do porto à tarde, praia de jaguaribe, villas, praia do
forte, imbassaí, shows de los hermanos na concha, passear no encontro as águas, andar sorrindo na estrada de são lázaro embaixo do sol quente, reuniões intermináveis de matérias, sair com os amigos pra não fazer nada, receber visitas inesperadas, ouvir pagode e os forrós mais toscos na rua, ouvir os chorinhos e os sambas bonitos, conversar com estranhos no ponto de ônibus, as conversas alheias, ver os prédios antigos da minha cidade,

e dizer que eu vou embora? o que vai embora é meu corpo. porque eu sou tudo isso aí. e essas coisas ficam. pra sempre.




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